quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Para pensar

A vida não precisa necessariamente ser fácil para a gente ser feliz. Mas, a gente precisa ser feliz para a vida ser mais fácil.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

DE LINHAS, DE FRUSTRAÇÕES E DE BELÍSSIMAS ILUSTRAÇÕES.

A linha – ensinava dona Casturina e isso faz tempo para mais de metro e meio – a linha é formada por uma sucessão de pontinhos muito próximos uns aos outros.

Dezenas de anos depois alguém voltava com a idéia da linha, dessa vez para informar que o indivíduo cujo desenvolvimento integral é muito represado assemelha-se a uma linha cheia de nós. Cada nó concentra uma série de frustrações. Quer dizer, a pessoa ao atingir a idade cronológica adulta, pode ser até fisicamente toda ‘enrolada’ como a rama de certos espinheiros. Essa deformação física decorre obviamente de um complexo de deformações psicológicas.

Durante uma carrada de anos me preocupei muito com essa segunda imagem baseada na linha. Realmente me pareciam terríveis as perspectivas nesta nação onde a imensa maioria da população coleciona frustrações o tempo todo. Acho que somos o ‘país do futuro’ há quinhentos anos! Futuro demorado não é mesmo? E ao longo de todo esse tempo não houve um qüinqüênio sem um fenomenal escândalo na administração pública.

Minha preocupação voltou mais forte quando o nosso Presidente Lula garantiu aos microfones, com todas as letras, que ‘nunca neste país houve um governo tão ético’.

Minhas condições de acesso aos poderosos são praticamente nulas. Mesmo assim passei um par de noites pensando em como alertar ao nosso Presidente sobre as notícias dos jornais e das revistas sobre o que está ocorrendo em seu governo ‘ético’. Desisti acuado pelas palavras do Governo sobre serem tais notícias ‘fabricadas’ pela mídia’. Desisti porque ninguém consegue esboçar um alerta a alguém ou a algum grupo que se nutre da má fé.

Não creio em que haja alguma coisa boa nesse Governo, em termos éticos.

Mas comecei a pensar na linha. Sempre a linha.

E comecei a pensar na linha porque os objetos vetoriais são constituídos com base na linha. Quando você cria um nó intermediário numa linha, pode obter dois segmentos de linha. Cada segmento pode voltar-se para uma direção. E é assim que o CorelDRAW, por exemplo, gera belíssimas ilustrações.

Ainda não faço a menor idéia sobre o futuro do povo brasileiro entregue as sucessivas frustrações diárias. Talvez sejamos um imenso campo de espinheiros-da-virgínia, cheios de nós e de espinhos, um povo amargo, irado, belicoso, um povo rastejante.

Espero, entretanto que aos olhos do mundo possamos nos parecer como uma belíssima ilustração.

Pelo menos isso.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

AVARÉ

Na poesia, sobretudo na poesia, a gente lê frequentemente sobre nascer muitas vezes e sobre muitas vezes a gente morrer. Claro que podemos entender que isso é escrito num sentido figurado, a menos que a tese esteja sendo defendida por um Eninho da vida. O Eninho, para quem não sabe, gostava de mandar a gente ‘pensar um pouco sobre a teoria espírita’. Mal sabia que tal exercício me punha pavor. Era horrível tirar a emissora do ar e caminhar durante a noite, pelas ruas então desertas de um Avaré que hoje não existe mais.
Já não existe aquele Avaré, nem mesmo existo mais naquele ‘eu’ de então. Aquele ‘eu’ era o arremate do alicerce e é preciso cavar fundo para encontrá-lo. Cavando fundo, bem fundo, aquele ‘eu’ me volta. E me vejo aprendendo a ‘responder a missa’ rezando em Latim sob a orientação do Samuel, sacristão da Igreja de Nossa Senhora das Dores. Já sabia ler e escrever porque, no sítio, fora alfabetizado. Eu era um dos alunos do Grupo Escolar Maneco Dionísio. O menor da classe. Sempre fui o menor aluno em todas as classes, até terminar o Curso Técnico em Contabilidade, no Sedes Sapientiae. Eu sempre fui o menor porque convivia com gigantes da estirpe de um José Roberto Batóchio, de um Roberto Keller, de um Zezé Guazelli. Isso, na escola formal, porque na escola da vida as personalidades de meu convívio eram ‘colossos’; Armando Padredi, Clóvis Guerra, Nassin Chaim, Elias Almeida Ward, Tininho Negrão, o Carlito Ferreira.
Eu não estou falando em poesia. Sem a licença poética não posso dizer que nasci muitas vezes. Preciso achar um modo de explicar a sensação que me passa quando penso em Avaré, pois chego a pensar que em Avaré ocorreu um dos meus tantos nascimentos. Não. Eu não nasci em Avaré, nasci no campo, num pedaço de chão que se chamava Serra Velha. Nem está no mapa.
A Avaré que está no mapa é uma bolinha, um pingo.
Maior, muito maior, é a Avaré que está em meu coração.

domingo, 28 de outubro de 2007

A MOCINHA E O CAPITÃO

Fechando a porta, a mocinha pobre deixou a chave de ferro na fechadura. Olhou uma vez mais para a rede vazia estendida no alpendre. Sentindo-se frustrada andou pela trilha de volta para a vila dos pescadores.

Talvez voltasse a limpar peixes ela que imaginando um futuro melhor lá deixara os pais há alguns meses. Quem poderia imaginar que o velho Capitão logo seria chamado e partiria para novas aventuras em oceanos do outro plano?

Velho e cansado, destituído de familiares e apartado de seus bravos marinheiros fixara-se o Capitão no chalé, disposto a aguardar ainda uma vez mais pela vinda de algum armador decidido a contratá-lo.

Em sua rede, solitário e irritadiço, vez por outra imaginava estar de novo em alto mar e aos berros pilotava seu chalé. Conquanto já quase incapaz de dar um passo em terra firme revivia em suas alucinações os seus cruzeiros, os perigos que enfrentara e as batalhas tantas que perdera.

Durante as tempestades em alto mar, quantos sustos, quanto esforço em mil manobras, quantos gritos de pavor! Quanto horror e treme-treme e ele ali, firme no leme desafiando os elementos. Mares e mares. Meses, muitos meses, ele solitário na cabine sobre as águas mais profundas e traiçoeiras. Viagens e viagens transportando suprimentos no interesse de armadores. Pois revivia aquilo tudo aos berros e impropérios.

Quanta riqueza transportou para toda gente!

Quantos tiveram de seu suor posto na mesa. A quanta gente dali e de algures veio por ele o que vestir, o que calçar, com quê luzir.

Bravo, era o cão!

Partiu, por fim.

Ali no casebre venceu muitas vezes as águas tormentosas do mar profundo e insondável. Aposentado, abandonado, conduziu de sua rede a imaginária embarcação com que tentou dominar os turbilhões de seus instintos.

A mocinha de lábios carnudos, cabelos encaracolados, caminhou pela trilha em direção à ilha dos pescadores. Caminhou desnorteada por antever a decepção dos pais em razão de seu retorno. Ao saber que o capitão a empregara, o pai dissera que ela não tinha mesmo sorte. A mãe, que ela era uma sirigaita.

Naquele momento ela não pensava em que depois da próxima borrasca já ninguém mais se lembraria do velho Capitão a quem serviu.

Nem naquele regresso, nem nunca, se deu conta de que naquela comunidade, ela, que dele menos recebeu, foi a única que a ele retribuiu.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

UM PROPRIEÁRIO SOVINA E O DESERDADO

Na escura madrugada em poucas horas ruiu o casarão cujo madeiramento ressecado ofereceu ao fogo oportunidade de demonstrar a olhos atônitos a assustadora beleza impetuosa de suas línguas vorazes. Tábuas e vigas ardentes, em rangidos , estalos e erupções incandescentes, proporcionaram um espetáculo de luz, de calor e de fumo espesso, atraindo pequena multidão de curiosos, assustada, incapaz de oferecer qualquer reação por impotente diante da fúria do repentino fogaréu.

Desabitado desde antanho o sobrado em bairro quase central havia atraído a atenção de famílias invasoras; catadores de papel, moradores de rua, gente marginalizada pelo deus mercado numa Pátria traída e rapinada por crápulas que brotaram vicejantes entre seus próprios filhos. Para evitar dissabores com tal gente o proprietário mandara reforçar portas e janelas com travas de madeira e permitira a um guardador de carros morar como por si pudesse num quartinho, nos fundos do quintal.

O pobre desvalido, que não tinha mesmo onde descansar os ossos, concordou em retribuir dando o alarme no caso de aproximações indesejáveis.

Demarcando o território de ação e isolando o braseiro, os soldados do Corpo de Bombeiros adicionaram novos atrativos ao sinistro. Agitados curiosos segredaram uns aos outros seus palpites, especulando sobre as causas do fogo e prováveis conseqüências para o patrimônio do proprietário reconhecidamente avaro.

Em pouco o murrinha saiu às pressas de um táxi que estacionou na esquina.

Sua chegada provocou imediato frenesi. Movimentos de empurra-empurra, excitação geral, interjeições guturais abafadas, e foi, literalmente, rodeado pelos desejos de audição.

Ele, em pé, no meio da rua, abalado, incrédulo, se lastimou aos microfones e gravadores suspensos por um batalhão de repórteres, gente consagrada a farejar desgraças alheias para com elas sustentar a vocação da mídia especializada em instigar a sede da população por relatos de infortúnios.

Exasperou-se. Blasfemou expondo o apego ao capital perdido. Deu razões esdrúxulas pelas quais se descuidou da conservação do casarão que ao longo dos anos se desfez apodrecendo. Informou não ter feito seguro. Muito dispendioso! Vociferou contra as autoridades em razão dos processos que teria de responder por impostos que jamais quis pagar pela posse do imóvel. Partiu por fim ardendo em cóleras e foi regar com seu estresse a horta do analista.

Amanheceu.

A cena já não mostra curiosos nem bombeiros. Os restos do casarão lembram os sinais da insensatez humana por toda a Terra em tempo de guerra ou paz: cinzas fumegantes e destroços retorcidos se contorcem silenciosos, afagados pelo amor do Sol nascente.

Apartado na esquina que se fez deserta, o guardador de carros, espantado, olhos esbugalhados postos sobre o rescaldo, sabe que perdeu o abrigo. Mas sente-se intimamente venturoso. Compreende que a oportunidade lhe emprestou comodidades efêmeras. Entende que sai do evento renascido. Reforça o ânimo que o sustém na lida e valoriza ainda muito mais a vida.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

ENTULHOS

Depois da morte do marido Madalena continuou sozinha no sítio mantendo uma a uma todas as lembranças de um tempo feliz. Dia a dia ficava mais pobre. Mais pobre e mais infeliz.
Uma tarde apareceu por lá uma velha andarilha. Pediu pouso.
Desculpou-se Madalena. Dentro de casa ou mesmo no celeiro não seria possível.
- Como pode ver, não há espaço nem no celeiro. Mal encontro lugar para guardar as coisas do finado.
- Quais coisas?
- Ferramentas e utensílios de trabalho pesado, recordações, colheitas antigas Era trabalhador, alegre, morreu deitado sobre a grama, perto do mourão da porteira. Morte esquisita, na hora do almoço e sem mais nem menos. Um homem forte e saudável. Pensei que estivesse descansando... Era tão bom... Eu guardo tudo o que era dele, até as espigas de milho que colhia quando se foi. Dá uma tristeza ver as coisas apodrecendo.
- Morte repentina?
- Igual passarinho. Uma tristeza. Desde então guardo dentro de casa e no celeiro tudo o que era dele.
- Sim. Já me falou! Mas onde então armazena o produto de suas colheitas?
- Planto pouquinho. Não teria onde armazenar. E sendo mulher não tenho a força que ele tinha. A vida perdeu a graça, dona!
A velha sorriu.
-Temos ainda um par de horas até que anoiteça. Posso encontrar abrigo logo mais adiante.
- Bem que eu gostaria de ter um lugar para a senhora.. Como é mesmo o seu nome?
- Alerta. Meu nome é Alerta. Pelos caminhos do mundo sigo na frente de minha irmã, a Esperança.
- Seus nomes são singulares e bonitos.
- Sim! A Esperança é a tecelã de incríveis Oportunidades.
Dona Alerta prosseguiu seu caminho.
E Madalena, desejando conhecer novas oportunidades, tratou de arrumar espaço para a Esperança.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

VELHA MULHER

UMA VELHA CONTEMPLA O NEVOEIRO QUE AO LONGE SE DISSIPA SOB A AÇÃO DOS PRIMEIROS RAIOS DE SOL.

Por detrás dos vidros manchados de uma janela de hospital, os olhos cansados de uma velha estão postos sobre o nevoeiro que ao longe se dissipa sob a ação dos primeiros raios de sol. Duas enfermeiras silenciosas aguardam pacientemente pelo fim daquele transe, elas, que ignorando as circunstâncias dos dramas domésticos conhecem as tramas da comédia humana.

No passado que agora retorna e maltrata outra vez, a velha é um repositório de angustias, medos, ódios, incertezas e aflições. Alguém a quem a vida, de forma exemplar, quis mostrar as suas sombras.

Seu primogênito gastou seus dias preocupado em trabalhar suprindo a falta do pai na educação do irmão menor - o sadio -, e na doação ao caçula - o paraplégico - a quem sempre desejou proporcionar dias de tranqüilidade, esperança e conforto. Mal compreendido pelo irmão que se demorava a se pôr em equilíbrio, persistiu em seus propósitos trazendo para casa, dia após dia, o pouco que ganhava. Dinheirinho pouco mas limpo, cheirando ainda o suor de seu rostinho de menino precocemente adulto. As pessoas - um homem e uma mocinha de olhos curiosos - não tinham detalhes a expor, nem dispunham de tempo para consolar. Disseram apenas que ocorrera uma explosão acidental. O rapaz se espalhara em pedaços e seus pedaços fundiram-se aos escombros do que até então fora o pavilhão ocidental da fábrica de explosivos.

A despeito de toda igualdade que possamos supor - e da unicidade de todos os destinos - cada um de nós abre suas próprias picadas na intrincada floresta do existir. Na marcha forçada há os que se desobrigam dos trastes e das amarras, especialmente diante de perspectivas de colheitas fartas. A solidariedade que nutre na divisão do pouco, desaparece na insensibilidade que em geral dá apego ao muito.

Assim, passados poucos anos, o mocinho que estudara foi brilhar noutros quintais.

A mãe chorou. Prova de que a dor, por mais severa e recorrente, não faz da gente pederneira estéril. Chorou silente, temerosa de que a até mesmo sua prece fosse mal interpretada por um Deus que por bondade ou por ranzinza a deserdara. Chorou pedindo ao Deus que não a ouvia, proteção ao desertor, ao que insensível a abandonava.

Os olhos dela agora estão só marejando.

Ela não esta chorando, ainda que lhe obrigue a dor da nova ausência. As enfermeiras acabam de informa-la da passagem, dizendo que o entrevado finalmente descansou numa cama de UTI.

Ela não sabe, mas contempla da janela mais do que o nascer de um novo dia.

Rompendo as trevas, dissipando os nevoeiros, nosso estranho canoeiro nos mantém a navegar.

Talvez quiséssemos atribuir à idade dela a compreensão calma e objetiva ao se recordar das crises superadas. Mas não é assim. Nem sempre a idade identifica o ser que entende.

Nas sendas da eternidade há os que sabem e os que aprendem.

UM VELHO NUM CASEBRE ABANDONADO

Em uma velha pintura numa lasca de madeira um velho vegeta na pobreza extrema e completo abandono, sentado sobre um cepo a meio palmo do chão. Que é um velho se advinha em razão das carnes flácidas nos braços e no peito descobertos pela estopa encardida e áspera com que protege as costas. Ele parece observar resignadamente algumas poucas brasas que ainda aquecem o montinho de cinzas no chão batido do casebre, que também se encontra em decomposição.
Trata-se de um náufrago.
Pouco importa se marujo ou capitão.
O mar imita os deuses dos destinos, implacáveis justiceiros aos quais nós, cristãos, apelidamos de Divina Providência.
Ele é um náufrago. Pouco importa quais tenham sido as correntes que o arrastaram. Pouco importa qual tenha sido o mar que o quis tragar. Correntes e mares, quaisquer que tenham sido, o despiram de seus rótulos. Sabendo-se que tudo se esgarcea, oceanos também podem ser de areia.
Ele é agora um farrapo quase sem poder e sem vontades. Vegeta destituído de orgulhos e vaidades. Fenece despido de seus ódios e rancores. Alheio a teorias e saberes, é inerte às gulas e aos odores.
Mas, não está morto.
Ele ainda vive!
E a prova de que vive é seu olhar.
Esmorecidos por si mesmos, brilham seus olhos refletindo a luz das brasas que se apagam lentamente.
Ele ainda ama. E, porque ama, sobrevive a todas as desditas.
A fogueira é a fonte do calor que ainda resta.
A fogueira, no que de mais perene ainda palpita, simboliza a mãe, a família de onde veio.
Há de sobreviver!
Sobreviverá por certo enquanto houver um resto de calor nessa fogueira.

ERNANI

Com seus quase dois metros de altura e pesado sem ser obeso, Ernani saiu confiante do consultório. Viver ou morrer dependeria bastante dali para frente de sua vontade e sua vontade sempre fora viver. Aliás, o doutor Lourival se quer olhara compenetrado para os resultados dos exames; sinal inequívoco de câncer pouco agressivo. A comunidade se habituara a vê-lo ano após anos com a mesma aparência robusta, a mesma agilidade física e mental, a mesma disposição, e ele se habituara a ouvir que de forma alguma aparentava a idade constante de sua cédula de identidade; 68 anos. Queria viver. Permanecer ainda por muitos anos dirigindo o carro da família; levar Georgina à igreja aos domingos, oferecer-lhe almoços em restaurantes, passear com ela que tanto se prendera com ele para a construção de seus haveres. Queria permanecer ainda por muitos anos participando dos debates políticos locais. Gostava da vida e queria viver.
Exposto ao sol muito forte daquela manhã deixara o carro no fundo da quadra que servia de estacionamento para os clientes do consultório enquanto não saiam do papel os planos para a construção do hospital. Na terra enxuta, plana e compacta, era fácil andar ereto e de pressa. Era assim que andava por todo lado há tantos anos desde quando passou a sentir dores nos quadris e aprendeu o modo correto de se levantar pela manhã, o modo certo de se posicionar para lavar o rosto na pia, o proceder prudente deixando para os mais jovens as façanhas físicas mais exigentes. Corpo ereto, quadril duro-duro, andou resoluto para o veículo.
Um retângulo de tecido vermelho estirado sobre o fio de arame esticado por cima de uma das barracas de lona lembrava a bandeira do MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra –. Naquela barraca as abas laterais foram enroladas e amarradas facilitando o acesso durante o preparo e a distribuição das refeições comunitárias. Povoando a lateral da estrada, o acampamento crescera nas últimas semanas sob suspeita de abrigar malfeitores ainda não identificados, responsáveis por furtos praticados nas imediações. Brigadas armadas vigiavam a cavalo propriedades da região percorrendo as divisas durante a noite.
Como fazia todos os dias pela manhã, Gregório passava pelo pasto com destino ao celeiro para desencilhar o cavalo antes de tomar o café. A constante presença da caminhonete estacionada no acampamento significava que o movimento era organizado e abastecia de gêneros de primeira necessidade os acampados. Ninguém mais do que ele temia a eventual necessidade de atirar contra alguém e ele esperava que os boatos que logo se espalharam sobre a constituição das brigadas armadas fossem suficientes para desencorajar os ladrões. Viu quando Ernani parou para abrir o portão de arame farpado que surgira na cerca da divisa com a estrada e apressou o passo do cavalo para saúda-lo.
-- Bom dia, Ernani. Então falou com o prefeito?
-- Bom dia. Fui ver o Lourival.
-- Ah! Mas é alguma dor?
-- Coisa pouca. Eu teria de ter falado com o prefeito porquê?
-- Imaginei. O acampamento está ficando maior.
-- Por esses dias saem todos daqui. Não se preocupe.
-- É o que espero.
-- Quando desistirão das rondas? Garanto que não precisam mais. Alguém passou por aí roubando carne e já deve estar longe. Não compensa perder noites de sono. Só encontrarão corujas nos pastos.
-- É o que espero. Mas, se não falou com o prefeito então não sabe da ameaça de invasão?
-- Invasão?
-- É o boato. O prefeito ficou de conversar com você e o delegado de vir ao acampamento. A gente está achando que não vai acontecer nada, mas pelo sim pelo não é melhor alguém convencer a patroa a sair da fazenda com as crianças.
-- Esse alguém seria eu?
-- Quem sabe? A você ela escuta. Há notícias. Invadem sem respeito. Quebram, queimam, machucam. Podem machucar as crianças, podem machucar a patroa. Tudo pode acontecer...
-- Pode. Tudo pode. Mas olhe para essa gente no acampamento; acredita mesmo em que possa representar ameaças dessa natureza? Eu não acho.
Georgina mantinha o costume de preparar o queijo e o pão caseiros encantada com a produtividade da terra que retribuía o trabalho com avantajadas raízes de mandioca e possibilitava enfeitar a mesa com frutas viçosas. Prestimosa, ajudava a lavar semanalmente a casa toda com água e sabão, esfregando vigorosamente com vassoura. Ficava limpo e fresquinho aumentando o prazer de se pôr às tardes na rede estendida no alpendre onde lia os romances. Era melhor do que ver televisão porque a leitura permitia imaginar cenários e personagens, sons e odores. Por muitos anos abstivera-se do prazer da leitura para se dedicar ao trabalho ao lado de Ernani que conseguira criar a filha sem jamais trabalhar um dia se quer sob ordens de terceiros. Quantas e quantas vezes sentira-se amedrontada durante a noite obrigada a dormir sob lona amarrada nas árvores, só para estar com Ernani que arrendava as matas virgens de onde retirava casca de pau? Meses, anos inteiros, sem pôr os pés na cidade, ela que saíra da quarta série sonhando com o curso normal. Ela que imaginava poder freqüentar o clube, participar dos bailes monumentais. Pois todos quantos achavam que o casamento não poderia durar, haviam quebrado a cara. Mais cinco anos e estariam casados há meio século!
Mateiro inveterado, Ernani só deixou de retirar as cascas de pau quando montou a serraria e passou aos arrendamentos de terras para os grandes desmatamentos. Georgina era então a companheira inseparável afundando com o peso do seu traseiro gordo o banco do carona do caminhãozinho do transporte das toras. Podia morar na cidade, no pátio da serraria, mas preferia morar no sítio. Quando a filha alcançou a idade escolar Georgina tratou de deixa-la com a tia, e depois no colégio interno, mas não se afastou do marido por conta de bem educá-la. Ainda agora que por força das circunstâncias moravam há menos de dez quilômetros da cidade, preferia morar ali onde podia cuidar de seus pomares e produzir o queijo e o pão caseiros.
Disposto a nada contar sobre o câncer, Ernani escondeu o envelope que recebeu do médico. Precisava encontrar um jeito de viajar sozinho para o tratamento e essa preocupação o fez esquecer do acampamento que crescera à beira da estrada. Só voltou a se lembrar quando o prefeito desceu do carro estacionado no quintal, perto do alpendre, por volta das duas horas da tarde. Alegre como sempre Georgina desejava que comessem do pão e do queijo, da banana e do marmelo, mas o almoço ainda não fora digerido e o prefeito estava com muito calor e sem apetite.
-- Antes que as coisas comecem a feder por aqui, vou procurar a ajuda do governador. – disse o prefeito.
-- Antes, desarme os fazendeiros. – Aconselhou Ernani.
-- É mesmo. – Apoiou Georgina – Acho um disparate dar arma de fogo nas mãos desses peões. Uma falta de juízo sem tamanho. É o mesmo que mandar buscar a violência para morar com a gente.
-- Alguém está roubando gado. – Justificou-se o prefeito.
-- Mataram reses no pasto, levaram parte da carne. Mas isso aconteceu e não está acontecendo mais. Ninguém pode acusar aos acampados. Georgina tem razão, podemos estar cutucando a morte violenta e ela pode cair sobre nós.
-- Ninguém está acusando, Ernani. Mas também ninguém pode pôr a mão no fogo por todos eles. Nem todos estão ali por necessidade, ainda que a maioria não tenha mesmo onde morar depois que nossas leis tornaram impossível manter trabalhador no campo. Há quem tenha casa própria e até mesmo quem tenha propriedade em algum lugar. Todo mundo sabe disso.
-- De acordo com o Ministro quem tem propriedade não invade terra alheia.
-- De acordo com o mesmo Ministro o governo não vai cumprir a meta das desapropriações para a Reforma Agrária. E de acordo com o bom senso estamos precisando da ajuda do Governo do Estado.
-- O governador vai dar ouvidos?
-- O governador vai ser alertado. Esperamos que ouça. Mas o favor que venho pedir é outro; a viúva do Anselmo não parece perceber o perigo que pode estar rondando sua casa.
A falta de controle rígido na distribuição dos recursos do Bolsa Escola no município levara Elisa a oferecer denúncia contra o prefeito. A investigação revelara favorecimentos impensáveis em detrimento de famílias realmente necessitadas. O caso ocupara páginas inteiras dos jornais. A indisposição agira sobre o prefeito que de maneira talvez inconsciente passara a se referir à Elisa pelo estado civil: viúva do Anselmo. Ainda que comprovadamente o prefeito estivesse preocupado com a segurança da munícipe e de seus filhos menores, ela não o ouviria agora por mais que pudesse estar sob ameaça de invasão. Por isso, ele precisava da influência de Ernani.
Mário Monteiro, mecânico de manutenção de máquinas agrícolas, desmontara o trator e pronto para viajar aguardava pela volta de Elisa. Informou que ela saíra com as crianças com destino ao banco. O concerto do trator dependia de substituição de peças inexistentes no mercado local.
Falariam com Elisa no banco. Olhando para o acampamento onde agora podiam ver da estrada a viatura policial e distinguir a figura do delegado falando aos acampados, Ernani chegou a pensar na possibilidade de contar ao prefeito sobre sua necessidade de tratamento médico. Talvez, caso combinassem, diria a Georgina que resolvera acompanhar o prefeito à audiência com o governador. O prefeito por sua vez dirigia pensando no descalabro da política econômica geradora de milhões de desempregados em todo o país, responsável pelo surgimento das invasões na periferia das cidades. Contando com poucos recursos ele não tinha como atender à demanda por escolas, creches, manutenção de estradas e pontes. Mal podia pagar regularmente a folha mensal e tendo em vista a ninharia dos salários que podia oferecer, não conseguira contratar o médico. Havia reclamação contra as filas nos postos de saúde.
A cidadezinha de ruas mal cuidadas e parcamente arborizadas torrava ao sol quando a adentraram por volta das três e meia da tarde. Na agência bancária, pouco acima do consultório do doutor Lourival, na mesma rua, a porta de vidro estava aberta. Com certeza poucos clientes procuravam pelos serviços do banco naquele momento e o prefeito achou improvável que a viúva ainda estivesse ali. Por via das dúvidas estacionou o carro junto ao meio fio e entrou na agência, acompanhado por Ernani que caminhou a seu modo, com o corpo firme e empertigado. Um menino correu vindo dos fundos na direção dos dois, e um estampido seco se fez ouvir. Ernani cambaleou caindo ao lado do prefeito ao mesmo tempo em que mulheres gritavam apavoradas e três homens corriam para fora, atirando. Haviam posto todos os clientes debruçados no chão, feriram a moça que atendia no caixa e levaram todo o dinheiro existente na agência.
O delegado levara para o acampamento cem por cento de sua força policial; dois soldados.
Ernani é só um número a mais na crônica policial do dia-a-dia. Nem serve de prova de que vontade de viver pode até vencer um câncer, mas não resiste ao caótico império da violência que assola nossa Nação.

Bom dia

Com a ajuda de muitas pessoas as quais agradeço muito, criei este blog.
Desejo divulgar alguns dos meus trabalhos. Desejo abrir espaço para tantos quantos desejarem trocar idéias.