Na escura madrugada em poucas horas ruiu o casarão cujo madeiramento ressecado ofereceu ao fogo oportunidade de demonstrar a olhos atônitos a assustadora beleza impetuosa de suas línguas vorazes. Tábuas e vigas ardentes, em rangidos , estalos e erupções incandescentes, proporcionaram um espetáculo de luz, de calor e de fumo espesso, atraindo pequena multidão de curiosos, assustada, incapaz de oferecer qualquer reação por impotente diante da fúria do repentino fogaréu.
Desabitado desde antanho o sobrado em bairro quase central havia atraído a atenção de famílias invasoras; catadores de papel, moradores de rua, gente marginalizada pelo deus mercado numa Pátria traída e rapinada por crápulas que brotaram vicejantes entre seus próprios filhos. Para evitar dissabores com tal gente o proprietário mandara reforçar portas e janelas com travas de madeira e permitira a um guardador de carros morar como por si pudesse num quartinho, nos fundos do quintal.
O pobre desvalido, que não tinha mesmo onde descansar os ossos, concordou em retribuir dando o alarme no caso de aproximações indesejáveis.
Demarcando o território de ação e isolando o braseiro, os soldados do Corpo de Bombeiros adicionaram novos atrativos ao sinistro. Agitados curiosos segredaram uns aos outros seus palpites, especulando sobre as causas do fogo e prováveis conseqüências para o patrimônio do proprietário reconhecidamente avaro.
Em pouco o murrinha saiu às pressas de um táxi que estacionou na esquina.
Sua chegada provocou imediato frenesi. Movimentos de empurra-empurra, excitação geral, interjeições guturais abafadas, e foi, literalmente, rodeado pelos desejos de audição.
Ele, em pé, no meio da rua, abalado, incrédulo, se lastimou aos microfones e gravadores suspensos por um batalhão de repórteres, gente consagrada a farejar desgraças alheias para com elas sustentar a vocação da mídia especializada em instigar a sede da população por relatos de infortúnios.
Exasperou-se. Blasfemou expondo o apego ao capital perdido. Deu razões esdrúxulas pelas quais se descuidou da conservação do casarão que ao longo dos anos se desfez apodrecendo. Informou não ter feito seguro. Muito dispendioso! Vociferou contra as autoridades em razão dos processos que teria de responder por impostos que jamais quis pagar pela posse do imóvel. Partiu por fim ardendo em cóleras e foi regar com seu estresse a horta do analista.
Amanheceu.
A cena já não mostra curiosos nem bombeiros. Os restos do casarão lembram os sinais da insensatez humana por toda a Terra em tempo de guerra ou paz: cinzas fumegantes e destroços retorcidos se contorcem silenciosos, afagados pelo amor do Sol nascente.
Apartado na esquina que se fez deserta, o guardador de carros, espantado, olhos esbugalhados postos sobre o rescaldo, sabe que perdeu o abrigo. Mas sente-se intimamente venturoso. Compreende que a oportunidade lhe emprestou comodidades efêmeras. Entende que sai do evento renascido. Reforça o ânimo que o sustém na lida e valoriza ainda muito mais a vida.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
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