quinta-feira, 18 de outubro de 2007

VELHA MULHER

UMA VELHA CONTEMPLA O NEVOEIRO QUE AO LONGE SE DISSIPA SOB A AÇÃO DOS PRIMEIROS RAIOS DE SOL.

Por detrás dos vidros manchados de uma janela de hospital, os olhos cansados de uma velha estão postos sobre o nevoeiro que ao longe se dissipa sob a ação dos primeiros raios de sol. Duas enfermeiras silenciosas aguardam pacientemente pelo fim daquele transe, elas, que ignorando as circunstâncias dos dramas domésticos conhecem as tramas da comédia humana.

No passado que agora retorna e maltrata outra vez, a velha é um repositório de angustias, medos, ódios, incertezas e aflições. Alguém a quem a vida, de forma exemplar, quis mostrar as suas sombras.

Seu primogênito gastou seus dias preocupado em trabalhar suprindo a falta do pai na educação do irmão menor - o sadio -, e na doação ao caçula - o paraplégico - a quem sempre desejou proporcionar dias de tranqüilidade, esperança e conforto. Mal compreendido pelo irmão que se demorava a se pôr em equilíbrio, persistiu em seus propósitos trazendo para casa, dia após dia, o pouco que ganhava. Dinheirinho pouco mas limpo, cheirando ainda o suor de seu rostinho de menino precocemente adulto. As pessoas - um homem e uma mocinha de olhos curiosos - não tinham detalhes a expor, nem dispunham de tempo para consolar. Disseram apenas que ocorrera uma explosão acidental. O rapaz se espalhara em pedaços e seus pedaços fundiram-se aos escombros do que até então fora o pavilhão ocidental da fábrica de explosivos.

A despeito de toda igualdade que possamos supor - e da unicidade de todos os destinos - cada um de nós abre suas próprias picadas na intrincada floresta do existir. Na marcha forçada há os que se desobrigam dos trastes e das amarras, especialmente diante de perspectivas de colheitas fartas. A solidariedade que nutre na divisão do pouco, desaparece na insensibilidade que em geral dá apego ao muito.

Assim, passados poucos anos, o mocinho que estudara foi brilhar noutros quintais.

A mãe chorou. Prova de que a dor, por mais severa e recorrente, não faz da gente pederneira estéril. Chorou silente, temerosa de que a até mesmo sua prece fosse mal interpretada por um Deus que por bondade ou por ranzinza a deserdara. Chorou pedindo ao Deus que não a ouvia, proteção ao desertor, ao que insensível a abandonava.

Os olhos dela agora estão só marejando.

Ela não esta chorando, ainda que lhe obrigue a dor da nova ausência. As enfermeiras acabam de informa-la da passagem, dizendo que o entrevado finalmente descansou numa cama de UTI.

Ela não sabe, mas contempla da janela mais do que o nascer de um novo dia.

Rompendo as trevas, dissipando os nevoeiros, nosso estranho canoeiro nos mantém a navegar.

Talvez quiséssemos atribuir à idade dela a compreensão calma e objetiva ao se recordar das crises superadas. Mas não é assim. Nem sempre a idade identifica o ser que entende.

Nas sendas da eternidade há os que sabem e os que aprendem.

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