quinta-feira, 1 de novembro de 2007

AVARÉ

Na poesia, sobretudo na poesia, a gente lê frequentemente sobre nascer muitas vezes e sobre muitas vezes a gente morrer. Claro que podemos entender que isso é escrito num sentido figurado, a menos que a tese esteja sendo defendida por um Eninho da vida. O Eninho, para quem não sabe, gostava de mandar a gente ‘pensar um pouco sobre a teoria espírita’. Mal sabia que tal exercício me punha pavor. Era horrível tirar a emissora do ar e caminhar durante a noite, pelas ruas então desertas de um Avaré que hoje não existe mais.
Já não existe aquele Avaré, nem mesmo existo mais naquele ‘eu’ de então. Aquele ‘eu’ era o arremate do alicerce e é preciso cavar fundo para encontrá-lo. Cavando fundo, bem fundo, aquele ‘eu’ me volta. E me vejo aprendendo a ‘responder a missa’ rezando em Latim sob a orientação do Samuel, sacristão da Igreja de Nossa Senhora das Dores. Já sabia ler e escrever porque, no sítio, fora alfabetizado. Eu era um dos alunos do Grupo Escolar Maneco Dionísio. O menor da classe. Sempre fui o menor aluno em todas as classes, até terminar o Curso Técnico em Contabilidade, no Sedes Sapientiae. Eu sempre fui o menor porque convivia com gigantes da estirpe de um José Roberto Batóchio, de um Roberto Keller, de um Zezé Guazelli. Isso, na escola formal, porque na escola da vida as personalidades de meu convívio eram ‘colossos’; Armando Padredi, Clóvis Guerra, Nassin Chaim, Elias Almeida Ward, Tininho Negrão, o Carlito Ferreira.
Eu não estou falando em poesia. Sem a licença poética não posso dizer que nasci muitas vezes. Preciso achar um modo de explicar a sensação que me passa quando penso em Avaré, pois chego a pensar que em Avaré ocorreu um dos meus tantos nascimentos. Não. Eu não nasci em Avaré, nasci no campo, num pedaço de chão que se chamava Serra Velha. Nem está no mapa.
A Avaré que está no mapa é uma bolinha, um pingo.
Maior, muito maior, é a Avaré que está em meu coração.

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