quarta-feira, 24 de outubro de 2007

ENTULHOS

Depois da morte do marido Madalena continuou sozinha no sítio mantendo uma a uma todas as lembranças de um tempo feliz. Dia a dia ficava mais pobre. Mais pobre e mais infeliz.
Uma tarde apareceu por lá uma velha andarilha. Pediu pouso.
Desculpou-se Madalena. Dentro de casa ou mesmo no celeiro não seria possível.
- Como pode ver, não há espaço nem no celeiro. Mal encontro lugar para guardar as coisas do finado.
- Quais coisas?
- Ferramentas e utensílios de trabalho pesado, recordações, colheitas antigas Era trabalhador, alegre, morreu deitado sobre a grama, perto do mourão da porteira. Morte esquisita, na hora do almoço e sem mais nem menos. Um homem forte e saudável. Pensei que estivesse descansando... Era tão bom... Eu guardo tudo o que era dele, até as espigas de milho que colhia quando se foi. Dá uma tristeza ver as coisas apodrecendo.
- Morte repentina?
- Igual passarinho. Uma tristeza. Desde então guardo dentro de casa e no celeiro tudo o que era dele.
- Sim. Já me falou! Mas onde então armazena o produto de suas colheitas?
- Planto pouquinho. Não teria onde armazenar. E sendo mulher não tenho a força que ele tinha. A vida perdeu a graça, dona!
A velha sorriu.
-Temos ainda um par de horas até que anoiteça. Posso encontrar abrigo logo mais adiante.
- Bem que eu gostaria de ter um lugar para a senhora.. Como é mesmo o seu nome?
- Alerta. Meu nome é Alerta. Pelos caminhos do mundo sigo na frente de minha irmã, a Esperança.
- Seus nomes são singulares e bonitos.
- Sim! A Esperança é a tecelã de incríveis Oportunidades.
Dona Alerta prosseguiu seu caminho.
E Madalena, desejando conhecer novas oportunidades, tratou de arrumar espaço para a Esperança.

Nenhum comentário: